segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Na cozinha (sujeito a alterações)

Uma das primeiras coisas que ela disse, durante o café da manhã, soou um tanto amarga e outro tanto cômica. Família só é bonita em porta-retratos. Logo veio uma explicação, repleta de comparações e exemplos. É, pois com toda a tecnologia, computador, apesar deles estarem longe, continuam falando, enviando e-mails, mensagens, etc. Um pouco de silêncio e apenas alguns estalidos ocasionados pelos encontros das xícaras com os pires. Nem em porta-retratos, pensando bem, só em álbuns. Arrecadei a xícara, o pires e o prato que usara e os coloquei dentro da pia. Todos meus álbuns ficam guardados, empilhados, sem ter de passar por um porta-retratos e ver uma foto que não quero ver, dentro de uma grande gaveta. Abri a torneira e deixei a água lamber as superfícies sujas, enquanto bocejava e estalejava o corpo recém desperto, apoiado ao balcão. Assim, se eu tenho um parente que não quero ver, que tenho vergonha, como um parente negro, negrinho, ou rasgo a foto e coloco no lixo ou então coloco em um álbum e o deixo engavetado. Deixei que ela falasse um pouco mais: fiquei sem escutar muito e falar menos ainda.

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